REI NEGRO – Um Novo Tempo

Idéias e Reflexões – por Márcio Rosa

Inseparabilidade da Vida e o Ambiente

Nós, seres humanos, temos participação direta nos acontecimentos que assolam o planeta Terra, tanto para o bem como para o mal. A “fúria da natureza”, como pautou dia desses um telejornal da Rede Globo, tem um inimigo, somos nós mesmos.
Estudo recente da ONU mostra um processo contínuo de alterações que vem sofrendo o planeta Terra. Acontecimentos como: Derretimento da calota polar, das geleiras no Alasca, no Peru, na Patagônia, redução da população de pingüins na Antártida, florescimento precoce de plantas no hemisfério Norte, aves migratórias chegando mais cedo na região; isso para citar alguns, são exemplos do caos em que estamos mergulhando e levando conosco todas as espécies animais e vegetais deste rico planeta.
Uma analogia interessante é o processo no qual nos submetem as células cancerígenas que podem nos levar à morte. Não seríamos, muitos de nós, células cancerígenas enquanto nos comportamos de forma repugnante no trato ao meio ambiente? A gama de agentes negativos neste processo degradante é enorme: governos, empresas de extração de madeiras e minérios, indústrias que vomitam poluentes na atmosfera e todos aqueles que jogam o seu lixinho em qualquer lugar como nos rios.
Há um ditado de tribo indígena chamada Maué que diz: “Quem mata a floresta, mata a casa da vida”. Somente um ser desprovido de sanidade poderia ser tão inconseqüente, pois estará destruindo a si próprio. E nós somos assim.

Esho Funi e origem dependente

Dentre os princípios budistas, aquele denominado Esho Funi (Inseparabilidade da Vida e o Ambiente) é um tema interessante para este momento, na medida em que observamos manifestações preocupadas acerca do assunto meio ambiente.
Outro princípio budista adequado é o da origem dependente que descreve a interligação e a interdependência de toda vida continuamente pelo passado, presente e futuro. Somos levados a compreender que é impossível construir a prosperidade eterna sobre o sofrimento dos outros.
Todos os fenômenos do universo existem dentro do contexto dos relacionamentos mutuamente sustentadores. Dessa perspectiva, nada existe sem significado e nada é desperdiçado. Entrelaçando esses “fios” de interdependência, o universo produziu e nutriu a vida, incluindo a vida humana neste planeta.
Estabelecer essa compreensão é, portanto, fundamental por uma série de razões, a principal é o respeito à vida como um todo. Definitivamente precisamos compreender que não estamos acima, mas nos inter-relacionamos dentro de uma natureza complexa.

04/ junho/ 2008 Publicado por rei21 | Ciência e Religião | | Sem comentários ainda

“A Humanização da Religião a Serviço da Paz”

“A Humanização da Religião a Serviço da Paz” é o título da Proposta de Paz 2008 de Daisaku Ikeda, presidente da Soka Gakkai Internacional.
Anualmente, desde 1975, Ikeda envia à ONU sua proposta com o objetivo de contribuir para um mundo mais humano, mais digno.
No próximo post estarei apresentando o conteúdo da proposta.
Aguardem!

20/ maio/ 2008 Publicado por rei21 | Uncategorized | | 1 Comentário

Lei de Causa e Efeito

A vida, repleta de incertezas, muitas vezes nos parece injusta. Alguns sofrem por questões financeiras, outros por doenças ou desarmonia familiar. Almejamos a felicidade, porém, somos surpreendidos por adversidades (desemprego, acidentes, desavenças, entre outros) ou simplesmente nos acostumamos com nossa condição de vida precária. E a tal felicidade parece ser um sonho distante.

Sobre este ponto, o presidente Ikeda orienta: “As pessoas da sociedade atual podem ser comparadas a um navio que perdeu a bússola no meio do oceano. Sem um guia correto para dirigi-las, elas navegam sem rumo para o futuro. Ter uma vida feliz — este é o desejo acalentado por toda a humanidade. Esta é a razão pela qual, desde a Antiguidade, as pessoas têm procurado religiões, e várias teorias têm sido expostas como fontes da felicidade. Quantos podem dizer que já se sentem bem-sucedidos em obter uma resposta satisfatória para todas as suas perguntas? Há uma tendência abrangente na sociedade atual, proeminente em especial entre as gerações mais jovens, de desvalorizar a vida humana, incluindo a sua própria. Acredito que essa tendência advém da ignorância da lei de causa e efeito.” (Guia Prático do Budismo, pág. 1.)

Quando falamos em causa e efeito, imaginamos uma série de situações do dia-a-dia em que se observa claramente a relação entre a ocorrência do fato e o motivo que o causou. Assim, dizemos, por exemplo, que uma determinada pessoa sofreu um acidente automobilístico devido à alta velocidade com que estava dirigindo; que um estudante passou nos exames por ter estudado as matérias com afinco; que uma inundação foi causada por uma forte chuva; ou ainda, que a causa de um incêndio foi um curto-circuito na instalação elétrica.

Mas ocorrem também muitos acontecimentos cujas causas não conseguimos enxergar de forma muito clara. A dificuldade de perceber essas causas torna-se ainda maior especialmente quando se trata de fatos negativos relacionados à própria vida.

O Budismo de Nitiren Daishonin esclarece que todas estas questões podem ser observadas sob a luz da rigorosa Lei da Causalidade que permeia todo o universo. Na escritura “Carta de Sado”, Daishonin escreve: “Um indivíduo que escala uma montanha conseqüentemente terá de descer. Uma pessoa que insulta uma outra será desprezada. Alguém que deprecia o belo nascerá feio. Quem rouba o alimento e as roupas de outros nascerá no mundo da fome… Esta é a usual lei de causa e efeito.” (As Escrituras de Nitiren Daishonin [END], vol. 1, pág. 203.)

Sob o ponto de vista budista, a lei de causa e efeito é rigorosa e abrange o passado, o presente e o futuro de nossas existências. Produzimos causas boas ou ruins a todo instante, com pensamentos, palavras e ações, ou seja, nossa vida atual é efeito de causas geradas no passado e no presente e, portanto, esses resultados são de nossa única e exclusiva responsabilidade. Na escritura “Abertura dos Olhos” consta a seguinte passagem: “O Sutra Shinjikan afirma: ‘Se deseja compreender as causas que existiram no passado, veja os resultados que são manifestados no presente. E se desejar compreender quais resultados serão manifestados no futuro, olhe as causas que existem no presente.’” (END, vol. 2, pág. 164.)
Fontes da pesquisa: Terceira Civilização edição no 369, maio de 1999, “Causa e efeito: A lei mais rigorosa da vida”. Guia Prático do Budismo. END: Escritura de Nitiren Daishonin.

12/ fevereiro/ 2007 Publicado por rei21 | Uncategorized | | 2 Comentários

Otimismo: Uma habilidade que pode ser desenvolvida

Segundo o budismo, o mundo no qual vivemos, repleto de dificuldades e sofrimentos, é denominado saha. A crise econômica, a falta de emprego, a violência, a desarmonia familiar, entre outros problemas que a época atual enfrenta, refletem a rigorosidade deste conceito.

De acordo com os ensinos de Sakyamuni, enquanto vivermos sempre experimentaremos dificuldades, tais como a morte de um ente querido, decepções amorosas, frustração por não obter aquilo que desejamos etc. Tudo isso compreende o ciclo de nascimento, velhice, doença e morte. Despertar para esta verdade constituiu a iluminação do Buda, ou seja, perceber que não adianta fugir das dificuldades, pois estas fazem parte da vida. No entanto, a forma como passamos por elas determina nossa felicidade ou infelicidade.

Com que disposição encaramos as dificuldades?

O fator principal é a nossa disposição, ou seja, como enxergamos os problemas que estão a nossa frente. Uma senhora que havia descoberto a causa de sua doença aos 40 anos de idade, após ter sofrido tantos anos sem tratamento, lamentou-se diante de seu médico por todos os anos perdidos em lágrimas e frustrações. Sabiamente o médico lhe disse: “Imagine que a senhora esteja andando por um deserto e de repente avista meio copo de água. A senhora pode pensar: ‘Puxa! Só isso de água?’, ou pode pensar de uma outra forma: ‘Que bom, ainda tem um pouco de água!’ A sua escolha decidirá o curso de seu tratamento.”

O intuito do médico era o de mostrar à paciente que a disposição que manifestamos diante do infortúnio é o que gerará a força para a transformação da condição da doença. Em uma de suas orientações o presidente Ikeda diz: “Quero que vocês compreendam as atividades sutis da mente. A maneira como orientam sua mente, o tipo de atitude que tomam, tudo isso influencia grandemente tanto vocês próprios como o seu ambiente. O princípio dos três mil mundos num único momento da vida elucida completamente o verdadeiro aspecto das atividades interiores da vida.”

Obstáculos: um salto para o fundo do poço ou um trampolim para o nosso desenvolvimento?

Há alguns anos, participando de uma reunião da Divisão do Jovens, um veterano disse: “Os obstáculos sempre surgirão, no entanto, podemos nos deixar abater por eles, sendo arrastados para o fundo do poço ou podemos fazer deles um grande impulso para o nosso desenvolvimento. Tudo depende da nossa convicção.”

Não há quem esteja livre das preocupações ou dificuldades da vida diária. No entanto, o que podemos aprender com estas circunstâncias? Com sabedoria é possível tirar proveito dos problemas, direcionando-os de forma positiva em nossa vida. Sobre este ponto o presidente Ikeda diz: “Uma vida de sonhos do tipo ‘Se eu não tivesse esse problema…’ é uma vida de fracasso. Pelo contrário, aquele que empenha esforços construtivos continuamente, considerando tudo do ponto de vista de ‘O que posso fazer para superar essas circunstâncias e transformá-las numa fonte de valor e vitória?’ é um vencedor.”

Otimismo: uma habilidade que pode ser desenvolvida.

As pessoas que conseguem manter o otimismo diante dos infortúnios do mundo saha estão sempre alegres, cheias de vigor e esperança.

Estudos na área médica vêm enfatizando a importância da fé e da disposição que o paciente apresenta diante da enfermidade como fundamentais para o bom restabelecimento da saúde.

O Dr. Seligman, presidente da Associação de Psicólogos dos Estados Unidos, num diálogo realizado com o presidente Ikeda, falou sobre a importância de se manter uma atitude otimista em relação à vida. Ele afirmou que até mesmo o indivíduo mais pessimista é capaz de desenvolver o hábito de ser otimista se aprender a questionar suas próprias crenças negativas. Como sugestão o Dr. Seligman recomenda o método de escrevermos o que pensamos ao depararmo-nos com situações difíceis para verificarmos a nossa forma de reagir. Assim, adquirimos a capacidade de redirecionar nossos pensamentos.

Vivendo com esperança a cada dia.

O conceito de função mística da mente é exposto pelo budismo, enfatizando a habilidade que a mente possui de mudar sua própria circunstância ou sua própria vida.

A filosofia budista de Nitiren Daishonin é considerada como a filosofia da esperança, pois nos possibilita direcionar nossa existência da forma como desejamos. Em uma de suas orientações o presidente Ikeda cita a história de um jovem que havia sofrido um acidente na infância e ficado com uma deficiência em uma das pernas. No entanto, seus pais sempre o encorajavam e jamais diziam que ele não conseguiria algo. Eles ensinaram-lhe que era capaz de fazer o que acreditasse ser possível, e que caso não conseguisse era porque antes de tentar já havia decidido falhar. Na adolescência este rapaz tornou-se uma estrela do futebol na escola onde estudava e, após sua formatura, foi bem-sucedido em seus empreendimentos na sociedade.

A partir desse exemplo podemos aprender dois pontos importantes: primeiro, que o destino somos nós quem fazemos e, em segundo, que a esperança é a força motriz que nos possibilita realizar nossos sonhos.

Revista Terceira Civilização – publicação da Editora Brasil Seikyo – Associação Brasil SGI
Colaboração: Luciana Monteiro, psicóloga.

30/ setembro/ 2006 Publicado por rei21 | Ciência e Religião, Uncategorized | | 2 Comentários

A teoria do nada – O que a Ciência e o budismo dizem a respeito

“Esta grande história de mistério ainda não foi desvendada. Não podemos sequer afirmar que tenha uma resposta definitiva”, disse Einstein referindo-se aos infindáveis mistérios do Universo. Um desses enigmas a ser decifrado é o do vácuo ou nada. Ele existe ou não? É cheio de matéria ou é totalmente vazio? Esta é uma questão de grande importância a qual a física moderna tem se devotado e que o budismo esclarece por meio do conceito de kuu.

A visão científica

De que é constituído o Universo? Esta é, muito provavelmente, uma das primeiras perguntas que o homem fez. A primeira é, sem dúvida, sobre a origem do Universo. Não há cultura que não tenha tentado dar resposta a essas indagações. Os cientistas procuram elaborar sofisticadas teorias ou comprovações experimentais para explicar a natureza do cosmo. Para o astrofísico Hubert Reeves, nem a ciência sabe como surgiu o Universo. “Ela não sabe se o Universo teve uma origem.” A grande explosão (Big Bang, em inglês) é só uma metáfora sobre o estado do cosmo há cerca de vinte bilhões de anos.

O questionamento sobre a constituição do Universo sempre fez parte do homem. Porém, na verdade, nem mesmo com o estudo dos átomos chegou-se a uma resposta completa. No início do século passado, o que se dizia é que o Universo era todo formado por átomos que, por sua vez, eram constituídos de prótons, elétrons e nêutrons. Mas hoje sabe-se que os prótons e nêutrons são formados por outras partículas, denominadas quarks e glúons, o que conduz à conclusão de que a matéria é formada por elétrons, quarks e glúons, mas essa conclusão não cobre tudo. A luz faz parte também deste universo, sendo denominada de fótons. Tem-se, portanto, outros ingredientes para a matéria: os elétrons, os quarks, os glúons e os fótons. Há, porém, outras partículas de um tipo diferente, produzidas em reações nucleares como as que ocorrem no Sol ou em reatores aqui na Terra, chamadas de neutrinos. Assim, tem-se átomos (com elétrons, quarks e glúons), fótons e neutrinos e muitos outros tipos. Segundo Rogério Rosenfeld, professor da Unicamp e PhD em Física pela Universidade de Chicago, o Universo tem apenas 5% de átomos, 30% de uma partícula elementar ainda desconhecida e 65% de um meio difuso (que não se concentra em galáxias) cuja origem não se conhece.

O vasto Universo contém bilhões de galáxias. Só a Via Láctea contém cerca de cem bilhões de estrelas. Durante um bom tempo, o paradigma científico afirmou que o Universo era constituído da mesma matéria do planeta Terra: átomos, fótons e neutrinos. Mas as observações do astrônomo suíço Fritz Zwicky mostraram que o peso das galáxias (ou, mais precisamente, a quantidade de massa) é cerca de cem vezes maior que o de todas as estrelas da galáxia, somadas. Ficou claro que entre as estrelas há um tipo de matéria que não irradia luz, a chamada “matéria escura”. Uma fração muito menor é de fótons e neutrinos. Logo, a maior parte do Universo não é feita do mesmo material de que nós somos feitos: os átomos. Não há uma resposta conclusiva para a constituição da maior parte do Universo. Cientistas têm se aproximado da fronteira do infinitamente pequeno, como também vem ocorrendo com a fronteira do macroscópico, o infinitamente grande. As pesquisas da dinâmica das galáxias indicam que 30% dessa composição é matéria escura, formada por um novo tipo de partícula elementar. Pela descoberta feita em 1997 (e que a revista Science considerou uma das mais importantes do século XX), sabe-se que 65% do Universo é composto por “algo difuso”, que não se concentra em galáxias e que provoca a expansão acelerada do Universo. Um estudo recente (de 2003) feito com base na análise de dados do satélite-telescópio WMAP levou à conclusão surpreendente de que 73% do peso do Universo vem do vazio. Vazio, porém, cheio de energia cósmica numa espécie de matéria escondida. As partículas que surgem, desaparecem em um tempo extremamente curto a ponto de não se perceber este efeito. Como disse o astrofísico John Bahcal, do Instituto de Estudo Avançado em Princeton: “Nós temos de aprender a entender esse Universo pouco atrativo, meio louco e implausível, pois não temos alternativa. Da matéria que existe, 85% são de um tipo que não conhecemos, e a maior parte da energia do Universo é de uma forma ainda mais bizarra. Medimos quantidades importantes, respondemos certas perguntas, e outras ainda mais desafiadoras surgiram em seu lugar. E tudo isso, ao olharmos para a primeira luz”, ou seja, os cientistas não sabem ainda qual é a constituição original do Universo. Sabem que algo existe no vácuo, o qual representa quase todo o Universo, porém é muito mais pesado que todo o resto do cosmo.

Existem muitos estudos em relação ao cosmo e uma das teorias que vem sendo estudada com maior interesse é a teoria do Big Bang. Daisaku Ikeda, presidente da SGI, em seu livro Vida — Um Enigma, uma Jóia Preciosa observa: “De acordo com os teóricos da explosão, o Universo explodiu há aproximadamente vinte bilhões de anos e todos os elementos básicos tomaram forma nos primeiros trinta minutos. Quando são levantadas questões como o que existia antes da contagem dos 20 bilhões de anos e o que causou a explosão, os proponentes dessa teoria são incapazes de responder. (…)

“Por outro lado, a teoria de um universo estático não tem sido aceita porque a idéia de uma criação infindável de nova matéria é contrária ao nosso tradicional conceito científico da física. No entanto, achamos essa teoria interessante. A idéia básica é a de uma criação contínua de nova matéria que se espalha em ondas, de modo que o cosmo se expande sem mudar a sua consistência fundamental. Não há princípio nem fim.”

Ikeda apresenta a suposição de que “o universo físico, pelo que conhecemos, tem um diâmetro de vinte bilhões de anos-luz e sua idade é de 20 bilhões de anos. São números imensos, mas pelo menos são finitos e constituem os limites físicos da cosmologia do nosso tempo. Além dessas fronteiras, podemos nos apoiar apenas na imaginação. Pode ser ainda que o nosso cosmo não passe de uma parte de um supercosmo muito mais amplo, ou talvez exista um cosmo companheiro, composto inteiramente de antimatéria. Realmente conhecemos unicamente os limites do que sabemos e não do que pode existir”.

Em relação à geometria do Universo, o que os cientistas vêm descobrindo? Um estudo realizado por um grupo liderado por Jean-Pierre Luminet, do Observatório de Paris, sugere que a geometria do Universo, numa escala gigante, pode ser de um dodecaedro esférico, composto por gomos pentagonais.

Se uma pessoa caminhar indefinidamente à procura do “fim do Universo”, acabará voltando ao ponto de partida. Essas idéias já circulam na física desde Albert Einstein, que, com sua teoria da relatividade, propôs um modelo de cosmos esférico e fechado. Um grupo liderado por Max Tegmark, da Universidade da Pensilvânia, apontou que os dados sugeriam uma conformação finita para o Universo. “Que forma ele teria, não sabemos”, disse na época Angélica de Oliveira Costa, brasileira que participou desse estudo. Luminet parece ter dado o próximo passo, sugerindo a estrutura da bola de futebol. Traduzida para as quatro dimensões do Universo, essa formação faria com que um objeto que saísse de um dos gomos da bola emergisse em outro, do outro lado. Parece uma idéia esdrúxula, mas é a solução que apresenta hoje maior compatibilidade com os dados, segundo George Ellis, da Universidade da Cidade do Cabo, África do Sul, que comentou o estudo publicado na revista Nature. Em conclusão, mesmo a geometria do Universo continua a ser um enigma.

A visão budista — o conceito de kuu

O budismo considera todas as coisas como fenômenos. E nenhum fenômeno possui natureza imutável ou independente. É isso o que expressa o conceito de kuu (shunya ou shunyata, em sânscrito), comumente traduzido como vácuo, vazio, não-substancialidade, latência ou nada. Porém, nenhuma dessas traduções é satisfatória. Alguns estudiosos ocidentais do budismo deram ao termo uma outra versão: relatividade. Porém, na obra Vida — Um Enigma, uma Jóia Preciosa, Daisaku Ikeda observa que essa tradução “tende a associá-lo à ciência dos físicos e, conseqüentemente, ao mundo material”.

O conceito budista de kuu está associado a um outro chamado de origem dependente, isto é, de que todos os fenômenos ou entidades ocorrem somente por meio do relacionamento com outros e, conseqüentemente, não possuem uma natureza isolada nem existem por si só. Portanto, a verdadeira natureza de todos os fenômenos é a da não-substancialidade e, estes, não podem ser definidos somente sob a ótica dos conceitos de existência e inexistência. Nagarjuna, um erudito do Budismo Mahayana e um dos principais discípulos sucessores de Sakyamuni, explanou este conceito da não-substancialidade como sendo o do Caminho do Meio, mostrando os extremos que representam as categorias de existência e de não-existência. Vejamos como exemplo o sentimento humano. O sentimento certamente existe na vida das pessoas. Entretanto, enquanto dormem, ele parece não mais existir. Mas, ao acordarem, imediatamente ele se manifesta. Assim, torna-se difícil defini-lo como existência e como inexistência. Embora sua existência pareça ser inegável, no momento seguinte ele desaparece, e vice-versa. Qual seria então a verdade sobre este fenômeno: existência ou não-existência? O conceito de kuu se aplica exatamente a estas situações em que a análise da existência e da não-existência não leva a uma conclusão.

Em “Sobre atingir o estado de Buda nesta existência”, Nitiren Daishonin afirma: “Qual é então o significado de myo? Myo é simplesmente a misteriosa natureza de nossa vida a cada instante, que a mente não consegue compreender e que não pode ser expressa em palavras. Quando observamos nossa própria mente em qualquer momento, não percebemos a cor nem a forma para comprovar sua existência. No entanto, não podemos dizer que ela não existe pelo fato de incessantes pensamentos nos ocorrer. A mente não pode ser considerada como algo existente nem inexistente. A vida é de fato uma realidade que transcende tanto as palavras como os conceitos de existência e inexistência. Ela não é nem existência nem inexistência, no entanto, mostra características de ambas. É a entidade mística do Caminho do Meio, ou seja, a realidade fundamental. Myo é o nome dado à natureza mística da vida, e ho, a suas manifestações.”4

O objetivo prático que está por trás desta idéia da não-substancialidade é a da eliminação dos apegos a fenômenos transitórios e ao próprio ego, isto é, a percepção de ser uma identidade independente e imutável.

O princípio de três percepções da verdade, ou simplesmente três verdades (santai), ajuda na compreensão do conceito de kuu. De acordo com este princípio, a realidade última de todo e qualquer fenômeno é formada pelas três percepções da verdade: a verdade da não-substancialidade (kuu-tai), a verdade da existência temporária (ke-tai) e a verdade do caminho do meio (tyu-tai). A verdade da não-substancialidade significa que nenhum fenômeno possui uma existência por si só; sua verdadeira natureza é a da não-substancialidade e não pode ser definida somente em termos de existência ou de não-existência. A verdade da existência temporária significa que todos os fenômenos, apesar da não-substancialidade, possuem uma realidade temporária que está em constante mutação. A verdade do caminho do meio significa que a verdadeira natureza de todos os fenômenos não é nem a da não-substancialidade nem a da realidade temporária, pois ambas se manifestam sempre. Portanto, o caminho do meio é a essência de tudo contida tanto no seu estado manifesto como latente.

Fazendo um comparativo com o corpo humano, da mesma forma que ocorre no macrocosmo, as pessoas também não percebem, mas a cada instante, nascem e morrem várias e várias células sadias ou destrutivas. Não se pode dizer que um indivívuo não tem células destrutivas, pois o câncer pode se manifestar repentinamente, assim como doenças inéditas podem se desenvolver de uma forma jamais imaginada por ele. Do mesmo modo, existem tipos de vírus que a cada dia, surpreendem a todos dificultando encontrar soluções a curto prazo, por ter sua origem desconhecida. Enfim, não se sabe de toda potencialidade existente em todo Universo, porque a cada instante pode-se conhecer novas galáxias, planetas, estrelas, cada qual com seu despertar natural, que é essa vida e morte ininterrupta e dinâmica. Um entendimento mais completo sobre o conceito de kuu dificilmente poderá ser realizado somente por estudos científicos. Por outro lado a ciência vem se aproximando do conceito que o budismo chama de kuu, de que a vida é eterna, ela sempre existiu e existirá.

Colaboração: Departamento de Cientistas e Departamento de Estudo da Associação Brasil Soka Gakkai Internacional

30/ setembro/ 2006 Publicado por rei21 | Ciência e Religião, Uncategorized | | 14 Comentários